
“Preciso pagar a hipoteca da casa.”. Foi com tais palavras que Nicholas Naylor, mais conhecido como Nick Naylor, principal porta voz da Academia de Pesquisa sobre o Tabaco, uma organização que, teoricamente tem como objetivo divulgar as informações cientificas e imparciais das necessidades do público norte-americano e das companhias de tabaco, definiu o motivo pelo qual trabalhava defendendo um produto que matava cerca de quatrocentos e setenta e cinco mil pessoas de pessoas por ano, mil e trezentas mortes por dia.
O livro Obrigado por Fumar, do autor Christopher Buckley, não poupa sensacionalismo nas falas do personagem principal, tampouco críticas em questões moralistas, abordadas em todos os capítulos, colocando em dúvida a ideologia implantada por dois lados justificados, cada qual com seu ponto de vista.
São 30 capítulos que abordam de maneira escancarada, cínica e até mesmo agressiva a vida de Nick Naylor, enquanto lobista divorciado politicamente incorreto de uma empresa do tabaco. Ele ganha a vida defendendo a ideia dos direitos dos fumantes, tentando fazer com que não haja uma queda na venda dos cigarros nos Estados Unidos, por conta dos que defendem a saúde e são opositores ao fumo.
Ele participa de um grupo chamado Mod Squad, abreviatura de Merchants of death (Mercadores da morte), que reunia os porta vozes das indústrias do tabaco – Nick Naylor, lobista da Academia de Pesquisa sobre o Tabaco , bebida – Polly Bailey, lobista do Conselho de Moderação, e armas – Bobby Jay, lobista da SAFETY (Sociedade para o Desenvolvimento de Armas de Fogo e Treinamento Eficiente da Juventude). O grupo não mostra sensibilidade alguma e escancaram de maneira natural. Estão sempre preocupados com interesses de suas organizações e as defendem até o fim, nem que para isso precisem abrir mão de sua ética e opinião pessoal.
Nick trabalha com Budd Rohrabacher, chamado de BR, diretor da Academia, Jeannette, sua subordinada no setor de comunicação, Gazelle, sua secretaria, e mais membros que compõe a organização. O dono da Academia de Pesquisa é Doak Boykin, mais conhecido como Capitão, um grande magnata do tabaco, que construira seu império com muita dedicação e sabedoria. Personagens bizarros entram em cena para complicar a vida de Nick a todo o momento, que tem que ter jogo de cintura para lidar com os novos desafios.
O livro aborda de maneira negativa e errônea as atividades de Relações Públicas, em que são mostradas meramente como lobby. Há uma manipulação de informação por parte dos lobistas, que não se importam com os públicos de suas empresas, e sim somente com o seu próprio ponto de vista. As organizações precisavam ganhar dinheiro, e os profissionais, dados como relações públicas, o faziam de modo grandioso, diga-se de passagem. Porém, em alguns capítulos, Nick prepara planos de ação para a APT, quando posto em dúvida pelo seu chefe, por somente reagir às situações diversas, e não agir, como deveria, por apagar incêndios menores quando deveria cuidar do fogo na floresta.
Uma parceria com a indústria cinematográfica coloca novamente a atividade de relações publicas em dúvida, em que se utiliza o merchandising para vender mais cigarros, fazendo com que atores fumem nos filmes hollywoodianos.
Não podemos negar que Nick Naylor tinha muito argumento quando se tratava de questões sobre o tabaco. Usava de informações falsas às vezes para conseguir com que a opinião pública acreditasse nele, ou simplesmente para virar o jogo quando estava diante de um impasse, imposto por alguns de seus inimigos. Considerava-se um mediador entre dois setores da sociedade, como ele mesmo relata a Heather Holloway, jornalista do jornal Moon, com quem mantém um caso em segredo no desenrolar da história.
O filme lançado em 2006 mostra exatamente o que o livro tenta passar, Nick Naylor, um lobista preocupado com seus próprios interesses, que ao longo da história nota que não é tão importante quando percebe a atenção que seu filho Joey, de doze anos, dá ao seu trabalho e ao fumo.
Enfim, um livro que deve ser lido por todos aqueles que se não importam com a linguagem escancarada e por muitas vezes direta, em situações constrangedoras, o humor negro que o autor utiliza, satirizando a vida dos funcionários de uma empresa que defendem o tabaco.
Cintia Trovo